Novo presidente do Theatro Municipal do Rio: a palavra de Cora Rónai.

fevereiro 25, 2017

fachadatm2-23trat
Querida Cora, você não me conhece, mas me representa em quase tudo. Portentoso esse artigo que você escreveu ao Maestro Ripper na página dele mesmo. Entrei ali para postar minha solidariedade e lamentar tamanha idiotice, mas, diante de você, nada tenho a acrescentar. Apenas lamentar, também, que nenhum artista do Municipal tenha se manifestado em relação a demissão do Maestro Ripper. Como sempre, eles se omitem, seja por um papel, seja pelo salário em dia. Sei, ele sabe, você também, Cora, que estamos em enormes dificuldades, mas não foi o mérito dos artistas que os premiou com salário em dia, apenas conchavos políticos sujos, imundos. Por isso mesmo, não entendo a omissão, o medo de desagradar, a falta de reconhecimento. Cora, através de você quero dizer: Maestro, muito obrigada por sua gestão extraordinária, por sua capacidade, competência e honestidade. E, se em algum momento houver algum movimento de protesto contra sua saída, conte comigo em todos os níveis. Um abraço a ambos.

COM AUTORIZAÇÃO DE CORA RÓNAI
Cora Ronai
23 de fevereiro às 00:07 · Rio de Janeiro ·
É tanta coisa errada acontecendo ao mesmo tempo nessa cidade, nesse estado, nesse país, nesse mundo — e eu só não falo de outros mundos e do sistema solar e da galáxia e das outras galáxias todas porque me faltam elementos, mas tenho certeza de que há alguma coisa fora da ordem por lá também — que fica difícil escolher a pauta da indignação.

Não dá para falar de tudo o que me deixa indignada ultimamente porque tenho uma vida fora da indignação, uma vida que demanda certa atenção — almoçar, jantar, pagar contas, tomar banho, trocar lâmpadas.

Mas hoje estou revoltada com a saída do João Guilherme Ripper da direção do Theatro Municipal. Ripper é compositor e maestro, veio de uma administração muito bem sucedida na Sala Cecília Meireles e, junto com André Cardoso, estava fazendo milagres no Municipal, onde conseguiu produzir uma boa temporada de espetáculos em meio ao mais absoluto caos financeiro.

Tão absurda quanto a sua saída é o alegado motivo para a sua demissão: “popularizar” o TM.

O Theatro Muncipal não precisa ser “popularizado”.

O Theatro Municipal precisa, antes de mais nada, ser viabilizado.

O Theatro Municipal precisa de verbas, precisa de respeito.

Não pode ser mercadoria de troca política, um cacho de carguinhos no toma lá dá cá entre o governo e câmara.

Ele não é um “centro cultural” daqueles que os políticos inauguram às dúzias em qualquer garagem para dizer que estão fazendo alguma coisa pela cultura. Ele é uma máquina rara e preciosa, o coração tradicional da música clássica do Rio, a casa onde funcionam uma orquestra, um coro e um corpo de baile, grupos dedicados a um tipo muito específico de arte.

Precisa ser dirigido por quem conheça a área, por quem tenha experiência em tocar a complexa administração de um teatro assim, com todos os seus problemas técnicos, artísticos e humanos.

Um teatro como o Municipal se populariza, de verdade, com temporadas a preços acessíveis, e com a ampla divulgação do seu trabalho — e não com “investimento em música popular”.

A contratação de Milton Gonçalves, figura indiscutivelmente querida e carismática, não é “um tapa na cara da música clássica”, como já ouvi essa tarde. É um soco no meio da fuça, um jab demolidor que vai acabar de vez com um organismo frágil que se mantém a duras penas, ao custo do amor e da abnegação de equipes que vem trabalhando sem recursos e, nos últimos tempos, até sem salários.

Milton Gonçalves, como diz orgulhosamente o populista que o pôs no cargo, “é o primeiro presidente negro do Theatro Municipal”.

É importante isso, e há mérito nessa escolha.

Mas o problema é que o Municipal não se dirige com a cor da pele. O Municipal não precisa de um presidente negro, amarelo, cinza ou rosa choque. O Municipal precisa de um presidente — de qualquer cor, credo ou orientação sexual — que realmente viva e respire música clássica, e que tenha experiência na gestão de grandes teatros, ou a sua já precária estrutura desmorona de vez.

O resto é demagogia, e política da mais rasteira.

Reflexões sobre dança

fevereiro 18, 2017

Eliana Caminada

Há alguns meses do lançamento, pela Sprint, de meu livro sobre História da dança, comecei a refletir sobre o indeditismo de um trabalho de pesquisa, absolutamente teórico, ser apresentado ao público, por uma bailarina.

Sim, porque é lugar comum entre nós mesmo profissionais dessa arte tão bela e universal quanto ignorada, sobretudo daqueles que veem de uma formação específica acadêmica, a lamentável afirmação de que “bailarino não fala, dança”.

Embutida nesse preconceito, cultivado pela própria categoria e estimulado pelo processo histórico do nascimento do ballet, na sua origem uma arte elitista e diletante, insere-se a ideia de que esse artista também não deve pensar ou desenvolver reflexões sobre qualquer assunto que não se enquadre no conhecimento da técnica que precisa dominar corporalmente. A dança, defendem-se, exige muito mais do que as atividades normais de um ser humano: requer o preparo atlético do ginasta e a sensibilidade do artista; a disponibilidade do repórter e a criatividade do comunicador; o tempo de estudo do técnico altamente especializado e a espontaneidade do autodidata.

Certamente é verdade, mas não é menos verdade que não basta. Infelizmente, aceitemos ou não, apesar de a dança comunicar aquilo que transcende as palavras, os intelectuais e os poderosos não a compreendem; principalmente na sua forma cênica. Desconhecem, de fato, completamente, uma manifestação artística sobre a qual não possuem nenhum domínio, e talvez, por isso mesmo, tratam-na, então, como algo meio excêntrico, uma espécie de capricho ou habilidade de seres pouco dotados para o exercício do saber considerado formal, institucional, normativo.

Evidente que tal desconhecimento acentua o problema e dá margem a equívocos inadmissíveis. Talvez resida aí parte da responsabilidade pela exclusão da dança do processo histórico-cultural da humanidade. No nosso país, de forma acentuada, em nações mais evoluídas, com muito menos rigor, podendo chegar a desempenhar o papel, politicamente fundamental, de integrar ou reintegrar nações, momentaneamente excluídas da comunidade internacional.

É normal confundir-se dançarino profissional com estudante de ballet. Banalmente ouve-se ou lê-se nos mais diversos meios sociais e veículos de comunicação, que tal ou qual pessoa foi “bailarino do Theatro Municipal do Rio de Janeiro”. Na realidade, a pessoa em questão foi somente aluna da Escola de Danças do referido teatro. Jamais atuou profissionalmente; inúmeras vezes sequer se formou. Afinal, trata-se de um longo curso, com duração de nove anos; nem todos os que por ali passaram tiveram vocação e talento para prosseguirem com uma carreira que envolve um grande despojamento e até certa dose de “atitude devocional”, na sua prática.

O aspecto transitório da dança, que a exclui da categoria das Belas Artes, facilita os argumentos de todos os que acusam a coreografia, isto é, a composição de movimentos que usa o próprio corpo humano como matéria-prima, de estar superada imediatamente após ser criada. Não sabem da capacidade de a dança, justamente por seu processo intrínseco e dinâmico de evolução, manter-se permanentemente atual, ajustando-se às novas concepções de estética através dos tempos, revelando, por isso mesmo, épocas, estados de espírito, sensações, e tudo o que de mais profundo exista por trás do executante. Porque a dança é a arte da verdade. O corpo não é um pincel, uma caneta, um som, uma cor; ele escapa do controle do bailarino e trai, revela sua alma; o movimento atinge e coloca a descoberto regiões que pareciam tão bem escondidas, tão protegidas pelas defesas desenvolvidas pela educação formal, pelo estudo racional do personagem e pela instrução, quando ela existe. Sim, é possível encontrar-se um bailarino de grande personalidade cênica, sem que isso envolva, necessariamente, qualquer erudição. De onde vem esse saber, esse domínio, essa compreensão maior da essência de obras, por vezes, tão complexas? É meio mediúnica, meio inexplicável, essa intuição; sugere movimentos psicografados; não deveria, mas existe, e nos coloca de frente para o imponderável, ilógico, mágico, desconcertados, estáticos e extáticos diante da Arte por excelência, longe, e como, da ciência e da sua objetividade.

Por outro lado, tal e qual os cabanos, que venciam suas batalhas mas não possuíam estrutura intelectual e emocional para organizar de maneira lógica essas vitórias, fadados, portanto, a vencerem eternamente e perderem tudo de uma única vez, de fato, nunca nos preparamos, em nenhum dos aspectos, para assumir postos de liderança dentro da nossa própria profissão. Seguimos quixotescamente duelando contra moinhos inexistentes e perseguindo ideais subjetivos, cada vez mais distantes dos papeis que deveriam ser ocupados por nossa insubstituível práxis, com algumas raras, lúcidas e brilhantíssimas exceções. Parei de dançar aos quarenta e oito anos. Dentro de minha cabeça de brasileira, bailarina, mulher, mãe, cidadã quando consigo exercer meu direito de cidadania, algumas reflexões haviam tomado corpo. Já percebia com mais clareza – sem a vaidade normal do performer, normal mas que inibe a visão da realidade e, sobretudo na dança, limita o sentido do coletivo – que precisávamos nos preparar para ocupar o enorme espaço que ela dança, oferece àqueles que a vivenciaram. Dei-me conta de que, em qualquer tempo, essa preparação seria viável, ainda que imprescindível. O impossível seria ter invertido essa ordem: teorizado na juventude e tentado transpor o poço da orquestra mais tarde. E quanto mais cedo adquiríssemos consciência de que precisávamos aliar conhecimento específico à cultura geral, mais legítima e incontestável seria a possibilidade de respondermos, em todos os níveis, pela nossa própria opção profissional.

Por natureza, sempre fui curiosa e apaixonada por história, em geral. Igualmente, o ambiente familiar, na qual fui educada desde a infância, me predispôs para aprender, assistir, respeitar e amar a Arte e para ver na cultura, erudita ou popular, indistintamente, o bem de maior valor de uma nação.

Assim, foi com naturalidade que me vi, um dia, diante de uma nova platéia formada por jovens e inquietos estudantes de um curso de licenciatura em dança: o do Centro Universitário da Cidade. Foi ali trocando idéias, refletindo com eles sobre a trajetória da dança, no mundo e no Brasil, que acabei escrevendo um livro. Este livro.

Tenho convicção de que minha maior credencial reside nos mais de trinta anos em que atuei no palco, mais da metade deles no Theatro Municipal do Rio, no permanente aprendizado que me proporcionam a juventude investigativa de meus alunos e de meu próprio filho e o profundo amor que nutro pela profissão que abracei, amor que determinou até minha vida pessoal.

Casei-me com um bailarino. Vivo entre os artistas da cena. Não sou nem pretendo ter a erudição de um filósofo pensador, mas acredito que possa colaborar na condição de pedagoga mas, principalmente, na de bailarina, de alguém que viveu o outro lado, o lado de dentro da dança, para o conhecimento de sua história e de sua evolução, sinalizando, simultaneamente, para um novo caminho a ser percorrido por aqueles que, como eu, amaram-na e conheceram-na, 14961411_1308997905827764_1538666373_na partir de todas as suas faces. Nesse caminho deverá ter lugar, inquestionavelmente, a dimensão institucional que nos é devida.

CAMINADA, Eliana. Reflexões Dança. Sprint Magazine, Cidade, v.99, n.104, p.26-27, set/out 1999. Disponível em: . Acesso em: 18 set. 2003.

SOMOS ARTISTAS MAS NÃO VIVEMOS DE BRISA!

dezembro 27, 2016

“Impedir as pessoas de se alimentarem, é para isso que trabalham, mostra o terrível retrocesso de prejudicar e não servir, tirar e não dar, de aparentemente matar pela fome, dor e vergonha ao invés de prestigiar aquele que tem honra de ser servidor e que não tem culpa pela infeliz administração que não paga a conta, sabedora do problema com bastante antecedência”, sentenciou o magistrado Peterson Barroso Simão.

SOMOS ARTISTAS MAS NÃO VIVEMOS DE BRISA! GOVERNO DO ESTADO DO RIO, PAGUE JÁ OS SALÁRIOS ATRASADOS DOS SERVIDORES DO THEATRO MUNICIPAL DO RIO!
Assine agora e ajude neste abaixo-assinado: SOMOS ARTISTAS MAS NÃO VIVEMOS DE BRISA! GOVERNO DO ESTADO DO RIO, PAGUE JÁ OS SALÁRIOS ATRASADOS DOS SERVIDORES DO THEATRO MUNICIPAL DO RIO!

ABAIXOASSINADO.ORG

O novo Projeto de Lei da Dança é um engodo.

julho 7, 2016

Eliana Caminada
7 h · Rio de Janeiro ·
Amigos, ontem atendi à convocação do Sindicato da Dança, presidido pelo meu querido companheiro Caio Nunes, com a intenção de conhecer melhor o texto do Projeto de Lei para a Dança e contribuir com sugestões que pudessem aperfeiçoá-la. Estava bastante entusiasmada mas a primeira frase que ouvi, logo ao chegar foi: Essa lei não aborda o ensino da dança.
Como assim? Se uma PL vem para regularizar a situação da dança, faz exigências de formação e propõe um quadro imenso de competências, está-se falando de ensino, sim. Até porque, se é para tratar apenas de questões trabalhistas a lei anterior é ótima e a ela bastavam acréscimos.
Bem, eu não deveria esperar muito de legisladores que, em nome do oba oba e da demagogia barata usam o nome de Daniela Mercury como referência da dança. Para nós, artistas da dança, referência em dança é Ana Botafogo, Cecília Kerche, Carlinhos de Jesus, Jaime Arôcha, Marli Tavares, Jarbas Homem de Mello, para falar apenas nos que estão na mídia.
Discutir a lei, ítem por ítem, e abrir para sugestões sobre as 200.000 competências que encontraram para um profissional da dança, foi exatamente o que não aconteceu. Houve sim, depoimentos filosóficos com clara intenção política, queixas sobre a situação deste ou daquele segmento de dança, enfim, o de sempre, tudo o que afasta o verdadeiro profissional da dança, perfeito para aqueles que se metem na dança e passam a pontificar por pura habilidade política. E para depois debochar claramente do que estamos expondo. Uma Lei sobre Arte precisa ser elaborada com a contribuição de Artistas, não de burocratas. A burocracia, os próprios parlamentares orientam e se incumbem de formatar.
Na 6a feira passada eu assisti a um ensaio de danças urbanas com Thiago Soares e Danilo d’Alma, coreografados por Renato Cruz. Amei aquela dança que tem força, que se expressa através do movimento, não das palavras. Aliás, do jeito que aquela lei está elaborada, brevemente o coreógrafo será dispensável, substituído pelos diretores de 200 coisas diferentes que serão competência da dança. Qual!!! Isso é Brasil.
Paro por aqui. Ainda teria muito a dizer a companheiros de jornada em dança. Mas tentar encetar uma conversa com advogados que nada entendem de arte…Ah, concluí.

Ana Botafogo, você nos representa.

julho 7, 2016

26 de junho às 19:04 · Rio de Janeiro ·
Amigos, já comentei que começo meu domingo assistindo na TV Cultura ao Samba na Gamboa, seguido do Prelúdio, programa de música clássica. De 15 em 15 dias conhecemos os candidatos do Jovens Talentos, concurso para talentosíssimos instrumentistas em início de carrreira.
Hoje, para minha surpresa, Ana Botafogo compôs a mesa de jurados. Ao vê-la anunciada pelo Maestro Julio Medaglia fiquei surpresa e orgulhosa. Isso é uma legítima representante do posto de Primeira-Bailarina do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Comentando com desenvoltura e bom senso ela mostra o que muitos bailarinos não lembram, não ligam, não dão importância, ignoram, desdenham: quem representa ou pretende representar uma categoria profissional, sobretudo artística, precisa ter cultura geral. O representante do ballet não deve ser um diretor estrangeiro ou o presidente do teatro, mas suas figuras principais. É preciso conhecer seu metièr profundamente, mas também tem que ser capaz de se sensibilizar e se envolver com outras artes. Não há nada mais constrangedor do que um bailarino que não sabe se expressar, que não conhece nada além de piruetas e développés; tudo o que ouve de música erudita é compositor de ballet (em geral, acham Minkus uma maravilha); nunca ouviu falar de grandes artistas plásticos e cenógrafos que criaram especialmente para ballet.
Decididamente, a época do “bailarino não fala, dança” acabou. No mundo atual, dominado pelo universo acadêmico, é fundamental ler, conversar com pessoas capazes de transmitir algum saber a mais, seja de vivência artística, seja de saber formal, literário, acadêmico.
ANA BOTAFOGO, PARABÉNS, VOCÊ SE PREPAROU MUITO BEM PARA SER QUEM VOCÊ É. VOCÊ NOS REPRESENTA!!!Ana Botafogo,

Ana Botafogo e Cecília Kerche: duas grandes mulheres da Dança

julho 7, 2016

Eliana Caminada
26 de junho às 23:08 · Rio de Janeiro
Hoje quero dizer algumas palavras sobre duas grandes mulheres: Ana Botafogo e Cecília Kerche.
Ana e Cecília são bailarinas diferentes, personalidades diferentes, mas estão unidas pelo respeito mútuo, pelo imenso amor à dança e à companhia a qual pertencem e dirigem, pela lição de ética e cidadania que transcende o artista e envolve a própria cidadania no amor ao seu ofício. Sim, cidadania na construção de suas lindas carreiras e no exemplo que dão a todas as gerações de devoção à dança.
Nós as conhecíamos como performers, como mensageiras do ballet como uma arte eterna, mas agora temos que lhes agradecer pelo lado administrativo, gerencial de uma companhia de ballet.
Com mais esta magnífica temporada elas revelam o quanto de preparo possuem para estar à frente da mais importante companhia de ballet de repertório do Brasil. Nada lhes falta, exceto dinheiro, mas competência supera tudo e isso ambas têm de sobra.
Parabéns pela condução de um Lago dos Cisnes integralmente remontado, ensaiado e estrelado com brasileiros, incluindo aí Gisele Santoro, pela superação dos inúmeros problemas que enfrentam, alguns absolutamente desnecessários, pela capacidade de conceder o título de primeiros-bailarinos aos que já o eram, de fato, mas não de direito, pela ousadia de pinçar e apresentar como primeira-bailarina uma moça que entrou outro dia na companhia.
Pensei que é preciso coragem, uma coragem que muitas vezes faltou a nossos diretores, mas acho que é mais do que coragem, é olho clínico, é bagagem, é experiência, é fé na nossa capacidade de sempre ressugir de crises e falta de verbas. Vocês mostram que é possível sim, trabalhar, desde que se queira, desde que por amor, sem patrocínios milionários para apresentar apenas um evento. Até porque, ballet no Theatro Municipal do Rio de Janeiro nunca será simples evento.
Ana Botafogo, Cecília Kerche, há muito tempo eu queria lhes agradecer. Muito obrigada

Cecília Kerche

Cecília Kerche

Ana Botafogo

Ana Botafogo

Entrevista a Luiza Bandeira – Mundo da dança

novembro 2, 2015

Eliana Caminada

Entrevista com a Bailarina Eliana Caminada,Bailarina, coreógrafa e maîtresse-de-ballet, registrada pelo Ministério do Trabalho / http://www.elianacaminada.net

 

“Meu amor está alicerçado na convicção de que o ballet não é apenas uma arte universal e atemporal; ele é também uma técnica secular, que ainda não foi – e creio que nunca será – superada como instrumento para conferir ao corpo plasticidade, expressividade e autonomia.

A dança, pensada e aplicada como atividade subordinada a essa técnica baseada na razão e na imaginação criadora, é capaz de transformar a opção pelo palco numa realização corporal, espiritual e psicológica de prazer. Mais do que isso, o ballet, é uma dança profundamente reveladora do interior do artista, traiçoeira, até, quando nos julgamos senhores do que transmitimos. O ballet é a dança da honestidade, do longo e seguro caminho que envolve uma erudição quase purificatória.”

 

                                                                                                                                  Eliana Caminada

 

 

Entrevista:
 LB: Eliana com que idade sua história começou com o Ballet, e quando você percebeu que queria viver de dança, se tornar uma bailarina profissional?

EC: Comecei a estudar ballet – ballet mesmo, não baby-class ou pré-ballet – aos 5 anos de idade, com Sandra Dieken, até hoje uma espécie de mãe e professora. Atualmente, já não se indica o ensino da técnica de ballet clássico para crianças tão pequenas. 

Desde os 3 anos, quando assisti Coppélia, com o Corpo de Baile do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, tendo Tamara Capeller no papel principal, eu quis estudar ballet. Mais: eu quis ser bailarina clássica.

Foi um encantamento definitivo, nunca pensei em ser outra coisa. Parece lenda, mas é a mais antiga recordação que tenho da minha infância, o que vale dizer que não me lembro da vida sem ballet. Aquele tutu, a bailarina na ponta, a música, a orquestra, a história do ballet, o prédio magnífico do Theatro Municipal, o rito que precede o espetáculo, tudo isso exerceu sobre mim, para sempre, um fascínio indescritível.

LB: Houve alguma influência familiar para que você se tornasse bailarina ou foi simplesmente sonho de criança? Família, apoio incondicional, ou sua trajetória com a dança foi solitária como a de muitos jovens bailarinos que vemos hoje? E o você tem a dizer para estes jovens.

EC:  Houve sim, muito estímulo de meus pais, de minha família toda, no sentido de me apoiar na decisão de ser bailarina. Tive uma criação, sob o ponto de vista cultural, muito rica. Teatro de prosa, concertos, óperas, ballets, meus pais viam tudo e me levavam junto com eles. Li desde que aprendi a ler e isso me valeu quase que como uma formação superior. Ainda leio compulsivamente sobre tudo. 

Minha trajetória jamais foi solitária. 

LB: Você se formou na Escola Estadual de Danças Maria Olenewa. Quantos anos levou para se formar e quais foram os melhores e piores momentos na escola de danças?

EC: Eu me formei na EEDMO em muito pouco tempo. Entrei para o 2º ano médio, tirei grau 10.0 no exame final e pulei para o 1º ano técnico. Quando estava nesse ano do curso técnico o Corpo de Baile abriu concurso. Eu ia fazer 16 anos, mas prestei o concurso e fui aprovada em 2º lugar. Fui, então, liberada da Escola para cursar apenas as matérias complementares. No ano seguinte, 2º técnico, era estágio no Corpo de Baile. Formei-me nesse mesmo ano, dançando a 1ª variação de Paquita de Petipa/Balanchine. No ano seguinte eu prestei novo concurso para o Theatro e, dessa vez, fui aprovada na primeira colocação e tornei-me efetivamente bailarina do Theatro Municipal. 

LB: Sabemos que você se formou em outras escolas, conte um pouco para nós de como foi esse período de formação e quais foram essas escolas. 

EC: Estudei particularmente com Dina Nova, Nina Verchinina e Tatiana Leskova, que foi minha professora para sempre. Quando me casei com Eric Valdo ele também orientou minha carreira e me ensinou muito do que sei e do que consegui fazer no mundo da dança. Mas costumo dizer que completei minha formação como bailarina do Theatro Municipal. Um teatro com o perfil do Municipal enriquece qualquer biografia, completa qualquer formação. Lá dentro você vai ouvir, dançar, cruzar, olhar, um mundo, o mundo da arte cênica. É muito mais do que dançar ballet.

LB: Mestres foram muitos e significativos, mas nessa longa carreira tem sempre alguém que nos deixa recordações e ensinamentos que levamos para o resto da vida. Quem foram eles?

EC: Sinto profunda gratidão e carinho por William Dollar, um grande mestre e grande coreógrafo, e por Jorge Garcia, o diretor que, de fato, gostou de mim como bailarina. Gostaria de citar, também, Consuelo Rios, minha primeira professora na Academia Tatiana Leskova, e Renée Wells, que me orientou no ano que passei na Escola de Danças.

LB:
Parceiros de Palco é assim que encontramos em uma das belas páginas do seu site (desativado):

 “No camarim, as rosas vão murchando

E o contra-regra dá o último sinal.

As luzes da platéia vão se amortecendo

E a orquestra ataca o acorde inicial.

No camarim, nem sempre há euforia

Artista de mim mesma, não posso fracassar.

Releio os bilhetes que pregados no espelho

Me pedem que jamais eu deixe de ‘dançar’…”

                                                                                                                            HERMÍNIO Belo de Carvalho

 

LB:Quem foram eles e o que significaram para sua vida e carreira?

EC: Ah, eu amei meus companheiros de palco. Ficava, sempre, sinceramente encantada de vê-los, aplaudi-los da coxia, torcer por eles, dividir com eles expectativas, sonhos, sucessos, eventuais fracassos. Muito marcaram minha vida. Poderia mencionar Fernando Bujones e Gregory Ismailov, com quem dancei Coppélia na íntegra, e Eric Wenes, com quem dancei Flower Festival in Genzano, mas certamente, muito mais importantes em minha vida foram: Aldo Lotufo, nossa maior referência da dança masculina no Brasil, com que tive a honra de dançar no encerramento de sua carreira; Othon da Rocha Neto, um ser querido, grande intérprete, uma vocação para a dança; Fernando Mendes, um talento excepcional; Jair Moraes, querido primeiro-bailarino, mais que isso, sinônimo do Balé Guaira; Marcelo Misailidis, um sopro de juventude e talento nos últimos anos de minha carreira; Antonio Bento, meu maior e mais querido amigo, entre outros.  

LB: Ballets de repertório, muita gente não sabe o que é e não entende quando falamos deles. Conte sobre os ballets que dançou, os mais importantes, e como também é professora de história da dança explique para nossos leitores o que seria um ballet de repertório. 

EC: Dancei muita coisa bela, mas guardo especial carinho por Coppélia, Les Sylphides e Giselle. A par desses clássicos de repertório, considero-me premiada por ter podido interpretar Romeu e Julieta de Maryla Gremo, uma grande e desconhecida coreógrafa do Theatro Municipal. Também não poderia deixar de mencionar as obras de Dollar, Magnificat de Oscar Araiz, os ballets que Eric criou para mim e clássicos como o pas hungrois de Raymonda. Pode-se considerar como ballet de repertório àquelas obras que adquiriram a condição de patrimônios da humanidade. Para isso, costuma-se considerar há quanto tempo a obra é encenada e por que companhias e bailarinos foi dançada. Um ballet criado há mais de 5 décadas, dançado no mundo inteiro, por grandes companhias profissionais e grandes bailarinos é, por certo, um ballet do repertório universal. Existem obras que só são encenadas em determinado país, são repertório local, não adquiriram caráter de universalidade. 

LB: Theatro Municipal RJ, uma grande história de amor entre você e esse lugar. O que o Theatro Municipal representou e representa na sua vida como bailarina?

EC: Não saberia separar minha vida totalmente do Theatro, até porque me casei com bailarino da casa, fiquei noiva na porta dos fundos do Theatro, ali realizei alguns de meus sonhos, recebi minhas primeiras flores e críticas como bailarina profissional, aprendi a maior parte do que hoje se constitui a minha bagagem artística. 

LB: Companheiros na vida e dança. Fale um pouco desses tantos amigos que contribuíram para sua vida na dança se tornasse mais feliz.

EC: Não dá, são muitos. Especialmente, e tenho medo de estar esquecendo amigos queridos, Karin Scholleterbeck, Norma Pinna, João Wlamir, Cesar Lima, Vera Aragão… E mais Aldo Lotufo, Cristina MartinelliRegina Ferraz, Ana Botafogo, Nora Esteves, Chico e Melissa Timbó, Laura Prochet, Carlos Cabral, Lydia Costallet, ah, são tantos. Toda a turma do Teatro Municipal de Niterói, os alunos da UniverCidade e a turma que se formou nessa Instituição, composta de bailarinos dos teatros Municipal do Rio e de Niterói, do Balé Guaíra, do Centro de Dança Rio, do Festival de Joinville.  Sem falar nos que já não estão entre nós. Nossa, ocuparia seu blog inteiro. 

LB: Eliana por Eliana, quem realmente é essa mulher bailarina maravilhosa que tantos já ouviram falar?

EC: Sou uma mulher que viveu intensamente, que não abriu mão de nada. Que se casou com um homem maravilhoso, meu companheiro há 43 anos (já são quase 49) , com quem tenho um filho, Roberto, que nos deu, dois netinhos lindos. Uma mulher que jamais colocou em dúvida sua escolha profissional, que mais do que talento ou atributos físicos tinha e tem vocação para a dança. Uma mulher que teve em seus pais e em sua família seu grande ponto de equilíbrio. 

Mas, sobretudo, uma mulher casada com a dança. Foi através do ballet que me fiz adulta, esposa, mãe, profissional, professora, cidadã.

LB: Para aqueles que estão começando, em sua opinião que caminho seguir para se tornar um bailarino (a) e o que não deve se fazer numa carreira como essa?

EC: Aos que estão começando eu diria que precisam perceber se realmente são vocacionados. Decidido isto, coloquem-se à disposição da dança, com humildade. Não tentem se impor à dança, mas permitam que a dança aponte o  que deseja de cada um de vocês. Que tentem entender se o seu lugar para melhor amar a dança é estar dentro ou fora dela, no palco ou na platéia. E que estudem, estudem, estudem. Leiam, leiam, leiam. Bailarinos têm fama de bonitos e nada pensantes. Precisamos mudar essa idéia, porque vivemos num mundo dominado pelo discurso acadêmico. E que estudem a história de sua profissão, que não se permitam não saber, não conhecer os grandes fatos da história, os grandes nomes, as grandes obras. Que saibam como chegamos até aqui.

O que não se deve fazer? Encarar a dança como uma ginástica, uma mera superação de marcas atléticas. Ballet é arte, é sensibilidade, é poesia, não é pernas na cabeça, quantidade de giros, virtuosismo gratuito, fogos de artifício. Olhem para Cecília Kerche. Ali estão os atributos físicos à serviço da qualidade da arte de dançar. 

LB: Eliana homenageia….

EC: Os bailarinos brasileiros. 

Com Marcelo Misailidis

Com Marcelo Misailidis

A mídia e os artistas cênicos em épocas distintas: similaridades e diferenças

agosto 15, 2015

Amigos, eu tinha perdido o endereço do meu próprio blog, acreditem. Agora, que consegui reencontrá-lo, vou postar novamente um editorial da revista Brasil Musical que, sempre, infelizmente, me parece atual e matéria de reflexão. Não sei dizer se nosso Theatro, o principal do Brasil, progrediu ou regrediu nesses quase 70 anos que distanciam seu surgimento do nosso momento atual. A grafia dos textos será mantida como na época do lançamento da Brasil Musical.

Pretendo postar outros artigos dessa revista, que foi um marco das artes eruditas na década de 40, no Rio de Janeiro.

O espaço do blog fica aberto para os colegas se manifestarem democraticamente. Todos estão convidados, não só a comentar as matérias, mas a escrevê-las e enviá-las.

Grande abraço.

“Editorial da Brasil Musical, fundada por João Baptista de Campos Mello Filho, no seu primeiro número. O apoio declarado ao Estado Novo de Getúlio Vargas não retira a qualidade da revista, editada…

Ver o post original 762 mais palavras

De Luis para Aldo e Suzana

outubro 10, 2014

Luis Arrieta enviou-me esta carta, dirigida a Ivan.
O que mais amo em Arrieta é sua capacidade de enxergar dentro da gente e de expressar o que sentimos com rara sensibilidade. Não por acaso, ele é o Poeta da Dança.
Esse texto me emocionou. Muito!!!
Deixo-o com vocês, amigos a admiradores de Aldo e Suzana, e para os indiferentes à importância que eles têm para nossa história. Quem sabe, ele conseguirá tocar o coração de vocês.
Eliana Caminada

A mensagem de Eliana no telefone me comunicava, com voz notoriamente embargada, a morte de Suzana depois de anos de sofrimento e muitos dias de internação. Liguei rapidamente para ela e fiquei sabendo também do falecimento do Aldo três dias antes. Senti como esta última semana estava arrebatando de um só golpe parte de uma geração de mestres e construtores das sendas que graças a eles ficaram mais largas e aplainadas para nossa caminhada. Mais tarde falei com Tatiana e ela, com sua infinita força inimaginável, depois de ter cuidado maternalmente de ambos nos últimos dias, ainda lutava contra a ignorância para conseguir a permissão junto à direção do Theatro Municipal do Rio de Janeiro para que amigos, admiradores e o povo da cidade pudessem despedir-se dele no espaço que ele mesmo ajudou a crescer e que durante tantos anos foi diariamente sua casa.
Tive a sorte e o privilegio de conhecer Aldo logo que cheguei ao Rio, numa de suas derradeiras apresentações num espaço singular do Museu de Arte Moderna. Era o pas-de-deux da cena do balcão de Romeu e Julieta, junto a Eliana, embalados na composição de Eric e a música de Prokofiev. Pouco tempo depois fui seu aluno e recebi os ensinamentos e a energia das suas preciosas aulas no estúdio de Tatiana em Copacabana.
Suzana foi-me apresentada primeiramente através das suas palavras carregadas de conhecimento, experiência, força e visão renovada expressadas em matérias e críticas de jornais e revistas. Com o tempo foi meu trabalho motivo e matéria de suas análises. A seguir muitos festivais juntos, sua amizade e o trabalho compartido.
Na aula que dei nesse dia, ainda emocionado, comuniquei aos bailarinos os falecimentos de Suzana Braga e Aldo Lotufo. Logo percebi que para esta geração de internet, face book e whats app, estes nomes não faziam eco. Tentei em poucas palavras apresentá-los e, enquanto o fazia, lembrei da conversa com Eliana que chorosa recordava o tempo da adolescência que tinham partilhado ela, Aldo, Suzana e Eric, tempos de sonhos e desejos sem limites, quando estudavam e descobriam no movimento no só a arte e a dança, mas a vida aberta à frente como um horizonte largo, próximo e fugidio, que ao correr trás ele faziam com seus largos passos de bailarinos girar a terra, sulcando e alargando a estrada já encontrada e recebida para que outros como eu, como tantos outros e outros pudéssemos percorrê-la com passo mais seguro, para que outros possam conservar nas pupilas os traços dos seus gestos impressos no ar, para que outros como estes jovens alunos que me escutam hoje possam juntos continuar sonhando o sonho do rei David, de Santo Agostinho, de Nietzsche, de Deus.

Luis Arrieta
São Paulo, 8 de outubro de 2014

Reflexões sobre a dança e sobre o ballet

setembro 24, 2012

Em 1999, faltando alguns meses para o lançamento de meu livro sobre História da dança de longo fôlego, comecei a refletir sobre o ineditismo de um trabalho de pesquisa, absolutamente teórico, ser apresentado ao público, por uma bailarina clássica.

Sim, porque é lugar comum entre nós mesmo profissionais dessa arte tão bela e universal quanto ignorada, sobretudo daqueles que vêm de uma formação específica acadêmica, a lamentável afirmação de que “bailarino não fala, dança”.

Embutida nesse preconceito, cultivado pela própria categoria – no caso, o bailarino clássico – e estimulado pelo processo histórico do nascimento do ballet, na sua origem uma arte elitista e diletante, insere-se a idéia de que esse artista também não deve pensar ou desenvolver reflexões sobre qualquer assunto que não se enquadre no conhecimento da técnica que precisa dominar corporalmente. A dança, defendem-se, exige muito mais do que as atividades normais de um ser humano: requer o preparo atlético do ginasta e a sensibilidade do artista; a disponibilidade do repórter e a criatividade do comunicador; o tempo de estudo do técnico altamente especializado e a espontaneidade do autodidata.

Certamente é verdade, mas não é menos verdade que não basta. Infelizmente aceitemos ou não, apesar de a dança comunicar aquilo que transcende as palavras, os intelectuais e os poderosos não a compreendem; principalmente na sua forma cênica. Desconhecem de fato, completamente, o ballet, como uma manifestação artística sobre a qual não possuem nenhum domínio e talvez, por isso mesmo, tratam-no, então, como algo meio excêntrico, uma espécie de capricho ou habilidade de seres pouco dotados para o exercício do saber considerado formal, institucional, normativo.

Evidente que tal desconhecimento acentua o problema e dá margem a equívocos inadmissíveis. Talvez resida aí parte da responsabilidade pela exclusão da dança do processo histórico-cultural da humanidade. No nosso país, de forma acentuada, em nações mais evoluídas, com muito menos rigor, podendo chegar a desempenhar o papel, politicamente fundamental, de integrar ou reintegrar nações, momentaneamente excluídas da comunidade internacional.

É normal confundir-se bailarino profissional com estudante de ballet. Banalmente ouve-se ou lê-se nos mais diversos meios sociais e veículos de comunicação, que tal ou qual pessoa foi “bailarino do Theatro Municipal do Rio de Janeiro”. Na realidade, a pessoa em questão foi somente aluna da Escola de Danças do referido teatro. Jamais atuou profissionalmente; inúmeras vezes sequer se formou. Afinal, trata-se de um longo curso, com duração de nove anos; nem todos os que por ali passaram tiveram vocação e talento para prosseguirem com uma carreira que envolve um grande despojamento e até certa dose de “atitude devocional”, na sua prática.

O aspecto transitório da dança, que a exclui da categoria das Belas Artes, facilita os argumentos de todos os que acusam a coreografia, isto é, a composição de movimentos que usa o próprio corpo humano como matéria-prima, de estar superada imediatamente após ser criada. Não sabem da capacidade de o ballet, justamente por seu processo intrínseco e dinâmico de evolução, manter-se permanentemente atual, ajustando-se às novas concepções de estética através dos tempos, revelando, por isso mesmo, épocas, estados de espírito, sensações, e tudo o que de mais profundo exista por trás do executante. Porque a dança é a arte da verdade. O corpo não é um pincel, uma caneta, um som, uma cor; ele escapa do controle do bailarino e trai, revela sua alma; o movimento atinge e coloca a descoberto regiões que pareciam tão bem escondidas, tão protegidas pelas defesas desenvolvidas pela educação formal, pelo estudo racional do personagem e pela instrução, quando ela existe. Sim, é possível encontrar-se um bailarino de grande personalidade cênica, sem que isso envolva, necessariamente, qualquer erudição. De onde vem esse saber, esse domínio, essa compreensão maior da essência de obras, por vezes, tão complexas? É meio mediúnica, meio inexplicável essa intuição; sugere movimentos psicografados; não deveria, mas existe, e nos coloca de frente para o imponderável, ilógico, mágico, desconcertados, estáticos e extáticos diante da Arte por excelência, longe, e como, da ciência e da sua objetividade.

Por outro lado, tal e qual os cabanos, que venciam suas batalhas mas não possuíam estrutura intelectual e emocional para organizar de maneira lógica essas vitórias, fadados, portanto, a vencerem eternamente e perderem tudo de uma única vez, de fato, nunca nos preparamos, em nenhum dos aspectos, para assumir postos de liderança dentro da nossa própria profissão. Seguimos quixotescamente duelando contra moinhos, inexistentes e perseguindo ideais subjetivos, cada vez mais distantes dos papéis que deveriam ser ocupados por nossa insubstituível práxis, com algumas raras, lúcidas e brilhantíssimas exceções. Parei de dançar aos quarenta e oito anos. Dentro de minha cabeça de brasileira, bailarina, mulher, mãe, cidadã quando consigo exercer meu direito de cidadania, algumas reflexões haviam tomado corpo. Já percebia com mais clareza – sem a vaidade normal do performer, normal mas que inibe a visão da realidade e, sobretudo na dança, limita o sentido do coletivo – que precisávamos nos preparar para ocupar o enorme espaço que ela dança, oferece àqueles que a vivenciaram. Dei-me conta de que, em qualquer tempo, essa preparação seria viável, ainda que imprescindível. O impossível seria ter invertido essa ordem: teorizado na juventude e tentado transpor o poço da orquestra mais tarde. E quanto mais cedo adquiríssemos consciência de que precisávamos aliar conhecimento específico à cultura geral, mais legítima e incontestável seria a possibilidade de respondermos, em todos os níveis, pela nossa própria opção profissional.

Por natureza, sempre fui curiosa e apaixonada por história, em geral. Igualmente, o ambiente familiar, na qual fui educada desde a infância, me predispôs para aprender, assistir, respeitar e amar a Arte e para ver na cultura, erudita ou popular, indistintamente, o bem de maior valor de uma nação.

Assim, foi com naturalidade que me vi, um dia, diante de uma nova platéia formada por jovens e inquietos estudantes de um curso de licenciatura em dança: o do Centro Universitário da Cidade. Foi ali trocando idéias, refletindo com eles sobre a trajetória da dança, no mundo e no Brasil, que acabei escrevendo um livro. Este livro.

Tenho convicção de que minha maior credencial reside nos mais de trinta anos em que atuei no palco, mais da metade deles no Theatro Municipal do Rio, no permanente aprendizado que me proporcionam a juventude investigativa de meus alunos e de meu próprio filho e o profundo amor que nutro pela profissão que abracei, amor que determinou até minha vida pessoal.

Casei-me com um bailarino. Vivo entre os artistas da cena. Não sou nem pretendo ter a erudição de um filósofo pensador mas acredito que possa colaborar na condição de pedagoga mas, principalmente, na bailarina, de alguém que viveu o outro lado, o lado de dentro da dança, para o conhecimento de sua história e de sua evolução, sinalizando, simultaneamente, para um novo caminho a ser percorrido por aqueles que, como eu, amaram-na e conheceram-na, a partir de todas as suas faces. Nesse caminho deverá ter lugar, inquestionavelmente, a dimensão institucional que nos é devida.

Eliana Caminada

Artigo revisto em 2012