Pais, mães e filhos

 

Nossas Bodas de Prata

Escrevi esse texto há muitos anos, para o Portal Wooz, mas ele se mantém atual até hoje na minha vida. A não ser o fato que o filho de um casal de bailarinos já é pai de gêmeos Luiza e Lucas, pequenos seres que já tomaram conta de todo o meu tempo, do meu coração e do meu amor. Bendito seja meu Eric e o filho que tivemos juntos. 

PAIS, MÃES E FILHOS

Eram mais ou menos 10h30m quando o telefone tocou. Do outro lado da linha ouvi a voz de meu filho. “- Oi filho, tudo bem? O que é que há, precisa de alguma coisa? Tudo ok com vocês?”. Referia-me a sua mulher. “- Nada mãe, tudo bem. Você e meu pai já vão sair?” “- Daqui a pouco, por que?” “- Por nada. Só liguei prá te dar um beijo.” Emudeci. Não que demonstrações de carinho não façam parte de nossa relação. Mas meu filho, como o pai, é introvertido, seu carinho é enrustido, raramente se explicita como nesse telefonema. “- Mãe, aconteceu alguma coisa?” “- Não meu filho. É que você me surpreendeu. Tô um pouco embargada.” “- Até parece, mãe. Beijo. Chama meu pai também.”

 

Na véspera havíamos conversado sobre tantas coisas. Papo adulto, amoroso, olhos nos olhos, compreensão de que havíamos desenvolvido muita cumplicidade. Papeando lembrei com carinho de um ex-namorado, um rapaz que fora importante numa determinada etapa de minha vida, de minha juventude. Rindo, notei sua perplexidade ao perceber que o pai encarava aquele assunto com a maior naturalidade. Procurei fazer-lhe ver que não faz sentido odiar, como se fora um inimigo, pessoas maravilhosas que um dia amamos. Reafirmei-lhe o que  nunca escondera de ninguém: que jamais deixara de querer bem àquele moço sério, honesto, àquela família, para mim eternamente querida, que nunca deixou de me tratar como filha, que fora ao meu casamento e com a qual mantemos, eu e meu marido, ainda hoje, 45 anos depois, uma sólida relação de amizade. Ah! Nossa vida com nosso filho, ‘longa jornada vida à dentro’, nem sempre doce, nem sempre tranqüila, mas sempre norteada pela sinceridade e pelo amor. Penso se é esta a chave que justifica uma confiança e uma segurança que o traz a nós para dividir qualquer alegria ou contar o menor problema. Aos quarenta e quatro anos, depois de uma adolescência de uns vinte e oito – como são longas as adolescências dos rapazes de hoje -, é uma bênção conversar com esse rapaz tão parecido com o pai, tão íntegro nos seus valores, tão amigo. Bonito como o pai, podem acreditar. Não tenho receita para criar filhos. Já vi filhos do amor totalmente desajustados, assim como lido com jovens, por vezes convivendo com graves problemas de relacionamento familiar, que são surpreendentemente equlibrados. Agradeço a Deus termos conseguido criar o nosso conquistando sua amizade irrestrita e absoluta. Nada lhe foi imposto: profissão, fé, amigos, meio social, roupas, gosto artístico.

 

Filho de artistas – meu marido é bailarino clássico, logo vítima de graves preconceitos -, jamais sinalizou para qualquer tipo de constrangimento em relação a esse fato. Ao contrário, como se nos sentisse sua propriedade, nos chama de meu pai e minha mãe. O tratamento “você” é parte da minha própria criação. Papai, além de esclarecer que “você” vinha de Vossa Mercê, um tratamento muito respeitoso, ainda enfatizava que Senhor está no Céu, recusando-se a abençoar-nos – somos três irmãs – dizendo: “Peçam a Deus que as abençoe. É o que eu mesmo faço todos os dias.” Não sei explicar como ele e minha mãe, tão pouco restritivos, nos criaram com valores que resultaram, por exemplo, em casamentos bem sucedidos. Sei que pesaram em nossa criação o exercício do amor, do respeito, da vocação e da amizade. Uma frase de meu pai, quem sabe, bem significativa, nunca me saiu da cabeça: “Não faça da rua a casa de seus filhos.” E se referia a alunos que não se sentiam à vontade na própria casa, que não se sentiam livres para levar seus amigos em casa, para usufruir de cômodos arrumados para visitas, certamente mais importantes do que a presença jovem e barulhenta de filhos e seus amigos; filhos impedidos de levar aos próprios pais suas dúvidas e ansiedades por receio de parecerem fracos, pouco inteligentes, preguiçosos. Exemplificava em casa: “Aquele casal de idiotas. Nunca estão em casa, nunca têm tempo para o filho, mas deixam sempre dinheiro na sua mesinha de cabeceira. Como se dinheiro substituísse amor, afeto, carinho, doçura. Esperam que o filho os ame e compreenda. Qual!” Prosseguia: “Comprou um smoking caríssimo para a formatura de um filho a quem nunca estimulou, de quem jamais se aproximou e ficou decepcionado porque o rapaz pareceu não dar a menor importância à despesa com a roupa. É razoável imaginar algo diferente?”

 

Ouvíamos aquela lenga-lenga toda e a entendíamos perfeitamente. Seus  fiins de semana haviam desparecido. Boêmio, abrira mão de tudo para assistir nossa adolescência, para fazer de nossa casa a casa de nossa turma. Transformou-se numa figura fundamental para a garotada, no conselheiro sentimental  dos namorados, todos muito garotos.  De repente víamos papai vestido. Lá ia ele conversar com alguns pais e acalmá-los: “Conheço o fulano desde menino, é bom rapaz. Não se preocupem.” À noite, toda noite, ia ao nosso quarto para ver se estávamos cobertas, colocava o lençol para dentro do colchão, via se as janelas estavam abertas ou fechadas, se estávamos suadas ou com frio. Quantas vezes, acordadas, esperávamos que ele saísse para liberar o lençol novamente. Não gostávamos daquilo, nos sentíamos presas. Mas, cadê a coragem de dizer-lhe? Entendemos também, mais tarde, o quanto fora difícil sua própria relação com meu avô, conservador, reservado. Já mais adultas, nos confessou que nunca se sentira amado pelo pai. Só percebera esse amor não revelado quando adoecera, ficando à beira da morte, com uma trombose cerebral  aos quarenta e um anos, e vira meu avô desabar, cair da pose que usara a vida toda para se mostrar invulnerável – justo para com aquele filho tão emotivo – e que encontrara muitas pequenas lembranças de sua vida nos achados de meu avô, sinal certo do amor que lhe devotara e que nunca conseguira manifestar em tempo. Pobre vovô, quanto sofrimento, impor-se uma atitude de rigidez diante dos que amava acima de tudo. Que tristeza a educação daqueles tempos. Em compensação hoje… Deus, como equilibrar as relações humanas?

 

Natal era dia de peregrinação por algumas casas. Umas de amigos que viviam com mais dificuldades e por isso papai fazia questão de manter a proximidade, outras de alunos que tinham nele o pai que não conheceram ou com quem não se entendiam. Num certo Natal adentrou em nossa casa um aluno,  para nós totalmente estranho, choroso, pedindo para passar conosco… conosco coisa alguma, com ele – aquela data; não viajara com os pais para ficar com a namorada e ela rompera o namoro justamente naquela dia. Confesso: achamos que papai passara dos limites. Perdemos toda a espontaneidade dos presentes, da ceia, dos amigos judeus que passavam Natal conosco também. Mas aprendemos o significado da solidariedade, do valor da família, da necessidade de ter com quem contar. O aluno enfiou-se num quarto e lá ficou até nem sei que horas. As lembranças das histórias do papai são inesquecíveis: “Vejam só fulano de tal. Adora música popular, mas o avô diz que uma família com seu sobrenome não toca porcaria. Ele ama essas “porcarias” que o vovô em questão, este insensível, jamais escreverá ou interpretará”, dizia indignado, até porque a porcaria era a bossa-nova que estava surgindo.

 

Papai lecionava no Colégio Mallet Soares, onde estudava grande parte da meninada que estava criando esse estilo tão carioca zona sul e classe média, e universal ao mesmo tempo. Por vezes, quando lembro do filme “A Sociedade dos Poetas Mortos” penso que papai poderia ter vivido aquela situação. Também ele estimularia o talento teatral de um aluno em quem reconhecesse vocação. Meu filho sente hoje, passados quarenta e cinco anos da morte de papai, a presença de suas idéias. Sempre trouxe os amigos em casa, teve chance de criar seu mundo pessoal, desenvolveu sua individualidade, se afastou do universo artístico, formou-se em engenharia civil. Até virar a grande curva da maturidade e se dar conta de que não adiantava lutar contra uma sensibilidade artística que estava latente nele, ainda que não lhe reservasse a segurança financeira que o atraíra em outros membros da família, única insegurança que cremos, eu e meu marido, o atingia de fato em relação a nós. Colocando de lado a engenharia, cursou outra faculdade e foi trabalhar se expressando por outros meios, com os valores estéticos, éticos e sensíveis que fizeram parte de sua criação. Gostamos de ouvir música; eles, pai e filho, muito mais do que eu, apaixonada que sou pela palavra. Hoje, juntos, ouvimos até música erudita, que meu filho está descobrindo tão tarde. Tarde?  E claro, com ele curtimos samba de raiz e canções brasileiras, Ivan Lins, Djavan, Alcione, Zeca Pagodinho, d. Ivone Lara, Gonzaguinha, Paulinho da Viola, Arlindo Cruz, Diogo Nogueira, entre tantos outros. Chico Buarque, ídolo maior de toda a família, é consenso. Compositores mais antigos, ídolos dos papais, tornam-se familiares nas “Aquarelas brasileiras” interpetadas por Emílio Santiago.

 

Eu sei, esta coluna é para falar de dança e tudo o que falei sobre o assunto foi repetir o que já disse: que meu marido foi bailarino clássico. Mas a conversa sobre as relações entre pais e filhos sempre me parece pertinente. No meu caso, a construção dessa convivência passou necessariamente pelo estigma do preconceito que ainda existe contra o artista, sobretudo contra o bailarino, como pude, constatar, certa vez, ao levar meu filho pequenino a um show constrangedor de Renato Aragão. Como lamentei, naquela tarde, o fato de que um formador de opinião que trabalha para crianças, lançasse mão de recursos tão aquém de seu talento, como o de desqualificar profissões para tentar fazer rir. Artistas, apesar de seu lado lado subversivo, anárquico, transgressor, que tipifica o temperamento artístico, não são necessariamente seres desajustados e desgarrados de valores morais. Quanto a associar ofícios à vida sexual de cidadãos me parece duplo preconceito: contra um aspecto da vida privada que só diz respeito a quem vivencia e contra o ofício, seja o de bailarino clássico, cabeleireiro, costureiro, e sei eu mais que outros. Ainda não superamos totalmente a situação que foi, um dia, motivo de comentário de meu marido: “Pensei que nunca me casaria. Que família me aceitaria? Exercia uma profissão mal vista, era anônimo e não tinha um tostão.” Casou, gerou nosso filho. O destino o colocou no seio de uma família com uma concepção absolutamente progressista da vida. De todos os episódios da vida de Jesus Cristo, o mais citado por papai era o de Madalena; na sua ogeriza a preconceitos e moralismos, costumava afirmar que de toda a filosofica cristã, a que mais o sensibilizava era o “Não julgueis para não serdes julgados. Quem não tem pecado que atire a primeira pedra.” Papai morreu aos conqüenta anos, uma semana depois de fazer, premido por alguma necessidade interior, sua primeira-comunhão. Foi nele que pensei, assim que desliguei o telefone, inundada de amor por meu filho. Foi seu pensamento, tão vivo para nós, suas filhas, até hoje, que tomou conta do meu naquele resto de dia. Não sei não, mas tenho a sensação de que ainda voltarei a falar de papai.  Ainda que falando sobre ballet, arte que ele amava tanto.

Eliana Caminada

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9 Respostas to “Pais, mães e filhos”

  1. Cesar Cataldi Says:

    Voces estao lindissimos nessa foto nesse momento , brilhando de alegria e demonstrando um enorme forca em serem um Familia que soube estar junta e dividir . Parabens meus queridos Eric e Familia e muitissimo obrigado por tudo !!

    • elianacaminada Says:

      Obrigada vocês, por estarem sempre próximos. Esse foi mais um dia feliz na vida de uma família que se quer bem. E cercada de amigos, de mãe, de tia, de amor. Bjs

  2. Cesar Cataldi Says:

    Voces estao lindissimos nessa foto , nesse momento , brilhando de alegria e demonstrando uma enorme forca em serem uma Familia que soube estar junta e dividir . Parabens meus queridos Eric e Familia e muitissimo obrigado por tudo !!

  3. Regina Maria Benevides Ferraz. Says:

    Muito querida Cami.Lindíssimo esses comentários sobre
    sua familia unida,hoje tão raro.Você grande escritora,em
    poucas palavras soube sintetizar uma vida de familia de artistas
    que tanto ajudaram a tantos.Junto aqui não só a minha admiração
    por você grande amiga e escritora.Beijos com meu eterno carinho
    Regia.

    • elianacaminada Says:

      Régia, não sou grande escritora; não sou sequer escritora. Sou uma bailarina que escreve de metida e que tem amigos como você, da vida toda, para lhe estimular e gastar tempo lendo o que escrevo. Obrigada, Régia. Um beijo no seu coração.

  4. angela (@ampg5) Says:

    Lindo e comovente, Eliana. Vejo que seu talento não se resume ao ballet. Como você escreve bem!
    Carinhos. Angela

    • elianacaminada Says:

      Angela, obrigada. Não sei o que dizer, porque jamais me julguei escritora. Escrevo com o coração, informalmente, para amigos.
      É verdade que já escrevi trabalhos encomendados, mas sempre me sinto insegura e deixo quem me contratou à vontade para dizer: Eliana, não ficou legal, sinto muito.
      Um beijo em você. E obrigada.

  5. Mariana Says:

    Professora Eliana, obrigada pelo seus textos, estou imensamente feliz de ter encontrado seu blog.
    Beijos, Mariana (Teresina-PI).

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