Ciclo dependente na dança de rua

Rodrigo Bernadi, professor e coreógrafo, reconhecido por ser um dos precursores das Street Dances.
A partir de uma observação focada nos desdobramentos da dança de rua, nos últimos anos, foi possível perceber um grande desenvolvimento artístico, no que diz respeito á técnica e concepção nos trabalhos. Supostamente, isso se deve ao um conjunto de acontecimentos que é inerente ao artista do século XXI, onde as informações não param de chegar via e-mail, sites, grupos eletrônicos e a própria facilidade que se estabeleceu na comunicação de massa. Além disso, nos dias de hoje, temos uma geração mais curiosa referente aos interesses artísticos, atenta às novidades, e com o cuidado de não despertar rejeição da própria classe, até porque, nesse ambiente nos deparamos com linhas estéticas distintas, egocentrismo e por muitas vezes com atitudes contraditórias, baseando-se nos princípios da Cultura Hip Hop, e primitivas, no ponto de vista de um convívio social saudável e respeitoso.

Por outro lado, as rodas de bate-papo continuam e sempre serão fundamentais no crescimento desses artistas, possibilitando a oxigenação de informações e exposição de ideias. Esses diálogos são realizados informalmente ou estimulados através de festivais, objetivando uma visão crítica dos trabalhos apresentados, que resultará no amadurecimento de cada coreógrafo e, consequentemente, no desenvolvimento qualitativo de cada grupo. Desta forma, os elementos deste “ciclo” serão os fios condutores deste artigo.

O “ciclo dependente” é um termo utilizado pelo autor para expor os costumes que norteiam o universo da dança de rua em nosso país, tendo em vista um esclarecimento e discussão desses hábitos, visando uma análise profunda e disponível ao público. Expondo estas questões publicamente entramos em contato com críticas que, favorecem diretamente e otimizam o crescimento dos mais diversos eventos, onde a dança de rua se faz presente, tanto no formato de ensino (oficinas e cursos de especialização), produção artística (espetáculos, mostras e performances) e pesquisa (elaboração de artigos, monografia, registro histórico, dentre outros).

Visivelmente é fácil notar que o eixo São Paulo – Rio de Janeiro – Paraná, independente da ordem citada, é onde acontecem os grandes encontros da classe, com exceção do Festival de Dança de Joinville, em Santa Catarina, que por muitos anos vem hospedando criadores de diversas cidades e regiões do país. Eventos em Santos e Curitiba, não ficam muito atrás em termos de diversidade dos trabalhos, até porque estas cidades fazem parte de um circuito, por onde a maioria dos grupos se apresenta no decorrer do ano e também, é local certo de desembarque de profissionais do exterior. A diferença se faz, principalmente, na realidade econômica e na filosofia implementada no trabalho de cada instituição.

Independente das condições econômica, estrutural e filosófica, a função de um evento onde abriga estudantes de dança, no ponto de vista do autor, é de disseminar informação e fomentar a produção de conhecimento por diversas vias, seja através da teoria, com recurso audiovisual, leitura de textos, palestras, rodas de bate-papo – ou através de vivências – oportunizando o estudante a conviver com técnicas modernas de ensino de dança, no qual ele não possa só ser solicitado por reproduções de frases coreográficas, pré-estabelecidos pelo professor (isto também é muito importante e fundamental), mas também de se permitir, ou se permitido, a descobrir outras formas de ensino, através de técnicas de improvisação e jogos de composição coreográfica, estimulando o contato com seu próprio vocabulário de movimentos e suas particularidades, permitindo um autoconhecimento de suas potencialidades. Isto só contribui, embora pareça um pouco longe da realidade dos cursos oferecidos neste segmento, mesmo porque, criou-se o hábito de reprodução, enquanto o de improvisação caiu um pouco no esquecimento.

Neste artigo não existe a intenção de generalizar ou de julgar profissionais, mas de salientar determinados pontos que automatizaram tanto o ensino da dança de rua, quanto o seu resultado cênico. Por isso, o “ciclo dependente” estabelece uma íntima relação entre o que é ensinado, com os resultados que são vistos nos palcos. Claro que “beber na fonte” todo mundo bebe, tanto no jeito de coreografar, ensinar, vestir, falar, até de pensar, e isso é comum: o que se aproxima dos nossos valores, aquilo que é positivo e que acrescenta, automaticamente, nos impregna. É válido assumir a identidade de uma artista, por experimentação, pesquisa, curiosidade, sobretudo pela vontade de aprender e com o intuito de somar ao seu conhecimento, desdobrando e deixando resultar algo que não tinha experimentado antes. Talvez seja uma forma implícita de descontrução do ciclo, tentando aprender de outra maneira, experimentando um pouco mais, reproduzindo menos, improvisando muito mais e deixando se levar por diversos estímulos.

Não é possível hoje viver sem repensar em nossas fómulas de trabalho, ignorando a velocidade das coisas e o aprimoramento no ensino e nas formas de pensar a dança. Especificamente, a dança de rua, pode ir muito mais além se equilibrarmos as rodas de Breakin’, Poppin’, Lockin’ e até mesmo as de Freestyle, com rodas onde possam ser conversadas diversas questões que sustentam esta dança no Brasil.

 

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