Pina Bausch

 


Marcelo Kahns,  jornalista.

 

 

Quando a minha colega de redação da Deutsche Welle, em Colônia, Sandra Dieken, me convidou para assistir a um espetáculo de dança, em Wuppertal, a primeira reação foi dizer não.

Além de não me interessar muito por dança, ir até uma outra cidade para assistir a um balé me parecia programa de índio.

Mas, como ela já tinha sido bailarina no Rio de Janeiro antes de se mudar para a Alemanha e, o que mais pesou, era a minha fada-madrinha na estação de rádio, onde tudo me era novo e sem ela eu estaria perdido entre tantos botões e comandos (isso era entre os anos de 1976-7) concordei e me resignei a uma viagem que me parecia totalmente descabida

A minha primeira surpresa foi quando, no caminho, cruzamos um viaduto sobre o Neanderthal, e eu fiquei a imaginar se debaixo daquela estrutura de cimento eu ia encontrar o antepassado do homem que não tinha dado certo.

Chegamos a Wuppertal, que tem um metrô aéreo que cruza a cidade e fomos direto ao teatro da ópera. Íamos assistir ao Balé da Ópera de Wuppertal.

Eu não conseguia imaginar programa pior.Mas depois que o espetáculo começou eu não conseguia tirar os olhos do palco.

Aquilo era algo que eu nunca tinha visto e nem era balé: era tanz theater e continuava com a vanguarda dos anos 1930, de um coreógrafo que tinha feito furor naqueles anos e que era da Folkwang Schule ( em Essen), uma instituição que existe até os dias de hoje.

Durante o espetáculo as pessoas, que estavam acostumadas a ver algo mais tradicional em matéria de dança, começaram a apupar, gritar, a sair batendo as portas dos camarotes, zorra total.
Na platéia ficamos umas vinte pessoas, que tinham vindo de todas as partes da Alemanha, que aplaudiram como loucas o final da apresentação.

Aí fui conhecer a responsável por tudo aquilo: Pina Bausch.Desde então tornamo-nos amigos e voltei inúmeras vezes a Wuppertal par assistir às suas criações.

No final dos anos 70, já no Brasil, fui apresentado a Hajo Schwierscott, o diretor do Instituto Goethe de São Paulo da época, por um amigo comum, Jean Claude Bernadet.

Hajo revelou-se tratar uma das figuras mais importantes que encontrei em minha trajetória, uma pessoa fora do comum, que deixou um verdadeiro legado cultural ao Brasil, criando centros e institutos por todas as cidades brasileiras por onde tinha passado.

Com a ajuda da Comissão de Dança da Secretaria de Cultura do Estado, da qual faziam parte a incrível Emilie Chamie e o nosso grande Casimiro Xavier de Mendonça, consegui convencer a trazer ao Brasil aquelacoreógrafa que, até então, só era conhecida na Alemanha e na França.

A sua passagem por aqui, em 1980, mudou radicalmente o cenário da dança no Brasil: infelizmente até hoje temos de agüentar subprodutos de sua genialidade, mas o impacto positivo foi bem maior.

Em São Paulo a nossa diversão era ir à Praça do Pôr do Sol, no Alto de Pinheiros e olhar o panorama e os cachorros se divertindo na grama.

Uma noite resolvi levar tanto Pina quanto os outros dançarinos à Sandália de Prata, uma ótima gafieira que existia na Rego Freitas, onde hoje é uma buate gay.

Sentados à mesa, chega até Pina um senhor negro, alto e corpulento, extremamente bem vestido e com um sorriso pediu-a para dançar.

Ela olhou para mim e só pude concordar.

Resultado : até o final da noite dançou-se tanto que ela teve de tirar os sapatos para voltar descalça até o hotel, o antigo Cà d?Oro.

E desde então a sua ligação com o Brasil tem se mostrado algo incrível e duradouro…

 

 

 

 


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